Olhar de Cinema: “Coma” é uma reflexão sobre os impactos do isolamento pandêmico



Com direção e roteiro de Bertrand Bonello, Coma acompanha uma jovem, isolada durante uma pandemia, cuja existência alterna entre estados de realidade e sonho. Inspirado pela filha de Bonello, o filme foi desenvolvido durante a pandemia de Covid-19, e integrou a mostra Exibições Especiais do 11º Olhar de Cinema de Curitiba.


Também dedicado à filha do diretor, com quem ele dialoga no início e no final do filme, Coma utiliza diversas linguagens para contar sua história. Live action, animação e stop motion se unem para criar os estados de realidade e sonho vividos pela protagonista, enfocada através da câmera tradicional, mas também em telas de celulares e chamadas do Zoom, uma amostra da crescente digitalização das relações, exacerbada pela pandemia. Em um “limbo” entre a realidade e o sonho, um plano de pesadelo povoado por almas perdidas, a câmera se torna subjetiva, colocando o espectador no lugar da personagem que vivencia aquelas incertezas, dúvidas e terrores.


Além da pandemia, que trouxe um impacto mais presente na vida dos jovens, o filme apresenta outros humores sociais, políticos e culturais, cujos movimentos afetam a vida dos jovens ao redor do planeta, de forma consciente ou não. Sessões de terapia são entrecortadas por notícias sobre a crise sanitária diegética, que espelha nossa própria crise; um boneco repete palavras proferidas pelo então homem mais poderoso do mundo enquanto sua companheira chora pelo relacionamento perdido; uma digital influencer motiva ações de automutilação. Para tratar da adolescência, este espaço vazio entre a infância e maturidade, Bonello se apropria de signos infantis, como bonecas de brinquedo, que contam histórias de dramas adultos, como relacionamentos conturbados e traição. Um brinquedo, chamado de “Revelador”, leva a questionamentos sobre a realidade. A protagonista dialoga com um assassino em série.


Neste estado de suspensão que a pandemia criou, a adolescência se tornou ainda mais confusa. Um momento que, naturalmente, é repleto de incertezas, se tornou ainda mais assustador. Questões existenciais foram exacerbadas. Elas deixaram o nível pessoal e ocuparam uma escala global. Bonello cria um caos simultaneamente estranho e familiar ao espectador que viveu os últimos anos, mesmo que este não tenha passado pela adolescência neste período. Todos nós vivemos estas incertezas.


Mesmo que o filme com frequência adquira um tom bastante sombrio, ele busca sempre uma mensagem de esperança. Este é um dialogo visual entre um pai e uma filha. Em 1h e 20 minutos Bonello reconhece o estado assustador do universo que sua filha habita e tenta auxiliá-la na busca de momentos de luz.



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