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"O Exorcista – O Devoto" (2023)


Dizem as más línguas que a Universal desembolsou 400 milhões de dólares pela propriedade intelectual de O Exorcista, franquia de terror baseada no livro de William Peter Blatty, que também assinou o roteiro da adaptação cinematográfica de 1973 (e ganhou um Oscar por seu trabalho). Dirigido por William Friedkin, O Exorcista foi o primeiro filme de terror a ser indicado na categoria de Melhor Filme, e também levou a estatueta por Melhor Som. Claro, não há descanso para os perversos e, no ano 2023 d.C., uma sequência-legado surge no horizonte, decidida a bater de frente com Taylor Swift.


Com direção de David Gordon Green, que assina o roteiro ao lado de Peter Sattler, que, por sua vez, é baseado na história concebida por Green, Scott Teems e Danny McBride, O Exorcista – O Devoto acompanha Victor Fielding (Leslie Odom Jr.), um viúvo que tenta manter um relacionamento próximo com sua filha Angela (Lidya Jewett). No entanto, a menina sente a falta da mãe e convence sua amiga religiosa Katherine (Olivia O’Neill) a ajudá-la em um ritual para contatar seu espírito. As meninas acabam desaparecendo por três dias, retornando sem memória e com comportamentos estranhos que se intensificam com o passar do tempo. Agora, Victor precisa superar seu ceticismo para salvar as vidas – e almas – de Angela e Katherine.


O maior problema de O Exorcista – O Devoto é sua conexão com a franquia O Exorcista. Se existisse sozinho, seria um filme razoável de terror religioso, uma boa distração para aqueles que preferem um filme de terror na noite de sexta-feira 13. Porém, sua tentativa de fazer parte de algo maior que si resulta em desastre. Nem Exorcista, nem Devoto, o filme não traz nenhum dos temas que transformaram O Exorcista em um clássico. O horror estava lá – e está aqui também. Meninas proferindo obscenidades com vozes grossas e olhos animalescos. Mas O Exorcista ia além de sua superfície religiosa, seu uso da mitologia católica para horrorizar. O Exorcista tratava dos conflitos da natureza humana que a religião pode despertar, culpa (especialmente a católica), maternidade e família, valores morais e sociais através da representação da pureza corrompida. Já O Devoto não dedica tempo suficiente aos seus personagens para estabelecer qualquer tipo de conflito. Qualquer atrito aparente é imediatamente solucionado na cena seguinte.


Não que O Devoto não tenha potencial. A narrativa toma uma curiosa rota ecumênica que poderia render muito, mas o roteiro ignora que diferentes religiões têm diferentes concepções de Bem e Mal, diferentes rituais e diferentes formas de lidar com as aflições da alma. Aquu, todas acabam por se submeter à autoridade católica, afinal o ritual de exorcismo como o cinema o conhece está baseado no catolicismo. Sem ele, a cruz invertida não inspira medo. Sem a mitologia católica, não há Exorcista.


Infelizmente O Exorcista – O Devoto consiste em um filme de 1h51 min referenciando uma obra infinitamente superior mas, se você conseguir ignorar a marca, Jewett oferece uma âncora emocional com Angela e O’Neill protagoniza uma sequência horripilante em uma igreja evangélica. Jennifer Nettles como Miranda merece destaque, e Ann Dowd em sua versão girlboss é sempre um deleite de assistir.



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