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"Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes" (2023)


Lançada em 2012, a saga Jogos Vorazes, composta por quatro filmes que acompanham a jovem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), arrecadou mais de dois bilhões de dólares em bilheterias ao redor do mundo. Adaptada da obra literária de Suzanne Collins, a trajetória cinematográfica de Katniss chegou ao fim em 2015, quando Jogos Vorazes: A Esperança – O Final alcançou a menor bilheteria global da série. No entanto, Collins criou uma gama de personagens que merecem ter seus próprios relatos registrados. Em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, a autora revisita a juventude do presidente Coriolanus Snow, buscando examinar as circunstâncias que o transformaram no antagonista que Katniss enfrenta em Jogos Vorazes. Hollywood pegou carona nas reminiscências de Collins e lança, nesta semana, Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes.


Com direção de Francis Lawrence, Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes encontra o jovem Coriolanus Snow (Tom Blyth) décadas antes de se tornar o ditador que aterrorizou Katniss Everdeen. Cidadão da Capital de Panem, Snow presenciou os horrores da guerra contra os Distritos, e tenta recuperar a riqueza de sua família após a vitória da Capital. Sua excelência acadêmica lhe garante uma vaga como mentor do tributo feminino do Distrito 12, Lucy Gray Baird (Rachel Zegler), numa nova experiência da Idealizadora dos Jogos, Dra. Volumnia Gaul (Viola Davis). O objetivo é aumentar a audiência dos Jogos Vorazes, que diminui a cada ano. Snow acredita que é necessário um espetáculo para fazer com que as pessoas se interessem pela carnificina, e Lucy Gray, cantora e compositora no Distrito 12, tem as competências necessárias para ajudá-lo a montar seu show. Porém, o envolvimento próximo com seu tributo torna os Jogos pessoais para Snow, que passa a quebrar as regras da Capital para garantir a vitória de Lucy Gray. O roteiro é de Michael Arndt, baseado no livro homônimo de Suzanne Collins.


Sempre seguindo a perspectiva de Snow, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes opta por uma adaptação bastante próxima ao material original, utilizando-se até mesmo da divisão em três partes do livro de Collins. Porém, sem encontrar uma forma de incluir os pensamentos e diálogos interiores do personagem, o filme de Lawrence entrega um Coriolanus muito mais simpático que Collins. Apesar de Snow, vez ou outra, externar opiniões incomodas, as circunstâncias que o personagem enfrenta deixam margem para múltiplas interpretações de suas ações, algumas delas até compreensíveis. É difícil ver uma criança passar fome e reprovar suas atitudes diante da oportunidade de escapar da pobreza. Apenas o diálogo interno de Snow tornaria suas escolhas maliciosas e, mesmo assim, a conjuntura que formou o futuro ditador tem óbvio potencial para enraizar os pensamentos extremistas levados à cabo em Jogos Vorazes. Snow passou fome, frio e medo, perdeu familiares, a estabilidade e o prestígio de sua família, viu vizinhos cometerem atos extremos para saciar a fome. Para ele, os Jogos Vorazes, batizados assim justamente para memorizar a principal mazela que atingiu a Capital durante o conflito, são justificados. Um lembrete para o eterno inimigo do poder que a Capital detém. Uma ameaça do que pode acontecer com todos eles. Do ponto de vista de Snow, a carnificina anual é o preço da paz.



A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes oferece uma visão repleta de nuances sobre as consequências de uma guerra, em especial de um conflito vencido por um regime que se julga superior aos derrotados. O filme traz o processo de desumanização dos Distritos, que são obrigados a assistir seus tributos sendo expostos no zoológico da Capital, sem água e comida, e só passam a receber auxílio se isso incrementar a dança macabra da qual agora fazem parte. São transformados em personagens deste espetáculo da morte, no qual Lucy Gray se destaca justamente por seu figurino e sua voz. Belas imagens produz o pássaro que canta enquanto morre ao vivo em rede nacional.


A verdade é que A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes é um filme excelente. A direção de Lawrence, responsável pela franquia desde Em Chamas, recupera alguns de seus melhores momentos dos capítulos anteriores (ou futuros). Há uma unidade visual, assegurada pelas escolhas do diretor, que facilmente identifica esta como uma narrativa do universo Jogos Vorazes. O roteiro de Arndt consegue traduzir o material original para a tela ao mesmo tempo em que mantém um preciosismo que vai agradar os fãs da série. A atuação dos protagonistas, especialmente Tom Blyth, é envolvente e elevada pelos veteranos que povoam a história. Peter Dinklage encarna o perturbado Reitor Casca Highbottom, Jason Schwartzman dá vida à Lucretius "Lucky" Flickerman e Viola Davis está aterrorizante como Volumnia Gaul. O elenco é completado por Josh Andrés Rivera e Hunter Schafer.


Os problemas de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes são escassos. Sua terceira parte tropeça na composição do ritmo, o que faz com que o peso das 2h38 min de duração apareça. Hunter Schafer não tem muitas oportunidades de desenvolver Tigris, personagem importante para a franquia. Referências à saga de Katniss Everdeen aparecem sem naturalidade. Mas é possível que o maior problema de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes seja algo que transcende a obra cinematográfica – seu timing. A Esperança – O Final estreou em meio à fadiga que finalmente enterrou as adaptações hollywoodianas de romances adolescentes distópicos. A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes chega aos cinemas tarde demais, apesar de seu material fonte datar de 2020. Em 2023, o público enfrenta uma fadiga pior: na TV e nas redes sociais, em gravações e em streamings ao vivo, observamos a morte de crianças em uma guerra travada por um Estado poderoso contra uma população vulnerável, que, sem acesso à água e comida, está aprisionada em sua própria casa. Não é necessário pagar pelo ingresso para acompanhar este horror. Os Jogos Vorazes acontecem aqui.


Enquanto obra de arte, Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes certamente merece atenção. Uma produção que critica a espetacularização do sofrimento humano enquanto sua equipe de marketing utiliza vídeos em que personagens apostam no vencedor da disputa até a morte para promover o filme no TikTok expressa bem as contradições enfrentadas por artistas na nossa sociedade. Para além desta reflexão, o longa metragem é um pertinente retorno à Panem e um entretenimento denso, mas fascinante.



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